quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Música: Chove chuva choverando (1927-2005) - Celso Sim



E para comemorar o aniversário de nossa cidade (atualmente cinza) de São Paulo, nada melhor do que um poema de Oswald de Andrade interpretado livremente pelo cantor Celso Sim.

Esta música faz parte do disco Vamos logo sem paredes! lançado em 2008 pela Gaia Discos.

Oswald de Andrade: Chove chuva choverando

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se lavando

Senhor
que eu não fique nunca
como esse velho inglês
aí ao lado
que dorme numa cadeira
à espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
que o jardim de meu bem
está-se todo se enfeitando
A chuva cai
cai de bruços

A magnólia abre o pára-chuva
pára-sol da cidade
de Mário de Andrade
A chuva cai
escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardim das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

José Oswald Sousa de Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 - São Paulo, 22 de outubro de 1954), Escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.

Marquês de Sade - trecho de obra 3




A águia, senhorita, é, às vezes, obrigada a deixar a sétima região do ar para vir se abaixar sobre o cume do monte Olimpo, sobre os antigos Pinheiros do Caucásio, sobre o frio larício do Jura, sobre o branco píncaro do Taurus, e algumas vezes mesmo perto das pedreiras de Montmartre, Sabemos pela história (pois a história é uma coisa bela) que Catão, o grande Catão, cultivava seu campo com as próprias mãos, Cícero alinhava, ele mesmo, as árvores nas belas alamedas de Formies (não sei se também eram podadas), Diogenes dormia num tonel, Abraão fazia estátuas de argila, o ilustre autor de Télemaque fazia pequenos copos para Mme. Guyon, Piron deixava às vezes os sublimes pincéis de La Métromanie para beber vinho de Champagne e fazer a Ode à Priape. (...) E nos nossos dias, senhorita, nos nossos augustos dias, não vemos a célebre presidenta de Montreuil deixar Euclides e Bar^}eme para falar de óleo ou salada com seu cozinheiro? Eis o que vos prova, senhorita, que o homem fez muito, elevando-se acima de si mesmo, mas há instantes fatais no seu dia que, apesar disso, lhe recordam sua triste condição de animal, da qual sabeis que meu sistema (talvez por julgar segundo mim mesmo), que meu sistema, digo, não o afasta muito.

Carta do Marquês de Sade a Mlle. de Rousset, enviada de Vincennes em 17 de abril de 1782. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Marquês de Sade - trecho de obra 2


Ora, o homem custa alguma coisa para a natureza? E, supondo que possa custar, custa mais que um macaco ou que um elefante? Vou além: quais são as matérias-primas da natureza? De que se compõem os seres que nascem? Os três elementos que os formam não resultam da primitiva destruição de outros corpos? Se todos fossem eternos, não se tornaria impossível à natureza a criação de novos indivíduos? Se a eternidade dos seres é impossível à natureza, sua destruição é por conseqüência uma de suas leis.
A natureza nada poderia criar se não se valesse dessas massas de destruição que a morte lhe prepara: o que chamamos de fim da vida animal não é um fim real, mas simples transmutação, que tem por base o perpétuo movimento, essência verdadeira da matéria, que todos os filósofos modernos consideram como uma de suas primeiras leis. A morte, segundo esses princípios irrefutáveis, representa tão-somente uma transformação, uma passagem imperceptível de uma existência a outra...

Argumento do libertino Dolmancé no discurso de A filosofia na alcova 

Marquês de Sade, A filosofia na alcova

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Duas namoradas - Itamar Assumpção e Alice Ruiz

As minhas duas namoradas na voz da Cantora Zélia Duncan. 




Duas namoradas 
Itamar Assumpção e Alice Ruiz

Tenho duas namoradas 
A música e a poesia 
Que ocupam minhas noites 
Que acabam com meus dias 

Uma fala sem parar 
A outra nunca desliga 
Não consigo separar 
Duvido d o dó que alguém consiga 

Cantar é saber juntar 
Melodia, ritmo e harmonia 
Se eu tivesse que optar 
Não sei qual eu escolheria 

Tem vez que o caso é comigo 
Tem vez que sou só sentinela 
Xifópagas, caso antigo, 
Tem vez que é só entre elas 

Nenhum instante se deixam 
Grudadas pelas costelas 
Nenhum segundo me largam 
Também eu não largo delas

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Tom Zé - O amor é um rock

Do disco de Tom Zé lançado em 2005, Estudando o pagode (na opereta Segregamulher e Amor).

Uma das muitas obras-primas deste compositor baiano de Irará. Perfeição!



O Amor é um Rock
  
- Jasão chora os filhos mortos:
Se você tá procurando amor
Deixe a gratidão de lado:
O que que amor tem que ver
Com gratidão, menino,
Que bobagem é essa?


- Dr. Burgone:
O amor é egoísta,


- Coro de Medéia:
Sim - sim - sim, Tem que ser assim.


- Dr. Burgone:
O amor, ele só cuida


- Coro de Medéia:
Si - si - si
Só cuida de si.


- Dr. Burgone:
Então quer dizer que o amor é mesmo sem caráter?


- Coro de Medéia:
Sim - sim - sim - sim 
Tem que ser assim,


- Dr. Burgone:
E sem caráter, de quem é que ele cuida?


- Coro de Medéia:
Si - si - si 
Só cuida de si.


- Medéia, Ariadne e Electra:
Sem alma, cruel, cretino,
Descarado, filho da mãe,
O amor é um rock
E a personalidade dele é um pagode.


- Canto de Ofélia:
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou
Só a dor deixou
Neste peito meu.

Meu primeiro amor
Foi como uma flor
Que desabrochou
E logo morreu.
Nesta solidão,
Sem ter alegria
O que me alivia
São meus tristes ais.

São prantos de dor
Que dos olhos saem
Pois que eu bem sei
Quem eu tanto amei
Não verei jamais.



2017


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Marquês de Sade - trecho de obra


À medida que os espíritos se corrompem, à medida que uma nação envelhece, na proporção em que a natureza é mais estudada, mais bem analisada, que os preconceitos são mais bem destruídos, tanto mais necessário se torna conhecê-los.
(...) quando o homem sopesou todos os seus freios, quando, com um olhar audacioso, mede suas barreiras, quando, a exemplo dos Titãs, ousa erguer até o céu sua mão intrépida e, armado apenas de suas paixões, como aqueles o estavam com as lavas do Vesúvio, não mais teme declarar guerra aos que outrora o faziam tremer, quando os desregramentos não lhe parecem mais que erros legitimados por seus estudos, não se deverá falar-lhe com a mesma energia que ele próprio emprega em sua conduta?

Marquês de Sade em Nota sobre romances ou a arte de escrever ao gosto do público, introdução do livro Os crimes do amor.