Mostrando postagens com marcador Beat Generation. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Beat Generation. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de novembro de 2012

Visões de Kerouac

Publicado em 18 de novembro de 2012 no jornal o estado de são paulo.

Autor fala sobre a obra e o processo de canonização do mítico beat

por  Roberto Nascimento

Barry Miles esteve lá. Editou uma revista alternativa de poesia beat, para a qual contribuiu Lawrence Ferlinghetti, no início dos anos 60. Presenciou a eclosão do movimento hippie, em Londres, onde organizou saraus com Allen Ginsberg. Era camarada de William Burroughs, conhecido de Paul McCartney. Foi dono da livraria onde John Lennon conheceu Yoko Ono. Escreveu dezenas de livros sobre temas relacionados à contracultura sessentista, incluindo as próprias memórias e as biografias de Ginsberg, Burroughs e Kerouac. Todo este arquivo ambulante chega ao Brasil esta semana (ver quadro abaixo), quando Miles realiza um bate-papo sobre Jack Kerouac - King of the Beats, sua biografia do icônico escritor norte-americano, autor de Na Estrada, que está sendo lançada no País. O Estado conversou com Miles sobre as encarnações do mítico beat, sua conturbada carreira e sobre a adaptação de Na Estrada, por Walter Salles.

Kerouac nunca foi unanimidade no cânone literário. Mas, nos últimos 20 anos, todos os seus livros foram publicados e ele virou ídolo da juventude novamente. Como se deu este processo?
É fato que a reputação dele mudou bastante. Na época em que morreu, em 1969, não conseguiu publicar seu último livro. Era visto com ressalvas por ter ideais muito diferentes dos da contracultura dos anos 60, movimento que, ironicamente, o teve como herói. Apoiava a Guerra do Vietnã, e era republicano, além de ser extremamente religioso. Acho que o tempo separou a personalidade da obra.
Os livros têm tanta energia e descrevem a América de uma maneira tão jovial, que não podem ser ignorados. Quando foram publicados, era a primeira vez que alguém falava tão abertamente de coisas tão íntimas. Ele descrevia as coisas mais vergonhosas. Ele colocava tudo no papel. Era realmente um grande escritor confessional. E se não fosse ele, não teríamos muitas coisas, de certas letras de rock-n'-roll, à poesia de Allen Ginsberg, que era muito influenciado pela forma com que Kerouac conseguia escrever sobre as coisas mais corriqueiras com uma energia incrível. Este era o grande valor dele. Como pessoa e personalidade, foi um fracasso. Tratava a filha de maneira horrível etc.
Ele chegou a Nova York com uma bolsa para jogar futebol americano na Columbia University.

Parecia um jovem equilibrado. Onde foi que as coisas deram errado?
William Burroughs dizia que Kerouac começou bebendo cerveja, sentado à mesa com sua mãe, e terminou da mesma forma. É difícil dizer o que deu errado. Ele sempre quis ser escritor. Quando era moleque, se gabava de ter escrito milhões de palavras, sem ter publicado uma sequer. Quando encontrou a fama que tanto buscava, ela o destruiu porque ele não estava preparado para lidar com ela. Hoje em dia, estamos acostumados com a cultura da celebridade. Mas naquela época isto era uma coisa nova. E Kerouac virou o representante de toda uma geração. Acho que era a pessoa errada para este papel. Ele simplesmente não conseguia lidar, então começou a beber. Em outras palavras, ele f... com tudo. As pessoas em volta dele queriam beber com ele, usar drogas com ele, até fazer viagens do tipo "Na Estrada" com ele. Então ele voltou a morar com sua mãe, na Flórida, no fim de sua vida.
Virou habitué dos bares de lá. Um ciclo deprimente. Acho que, se tivesse vivido, ainda escreveria um ou dois bons livros. Sempre quis escrever um livro sobre Burroughs.

Seus melhores livros são em primeira pessoa. Acha que tinha dificuldades em escrever algo inteiramente inventado?
Sim, as coisas que ele inventou são as menos felizes. Nos livros em que reconta seu material autobiográfico, ele consegue imbuir os personagens com tanta energia, que não conseguimos esquecê-los. São pessoas comuns. Ninguém é muito especial. Mas terminamos o livro achando que são santos, caras fantásticos que queremos conhecer.

O que acha da imagem descolada, de padroeiro dos 'hipsters' que Kerouac têm hoje em dia?
Ele nunca foi um cara descolado. Essa é a outra mudança em sua imagem. De todos os beats, era o primeiro a ser expulso dos bares. Era um bêbado barulhento, ao contrário de Burroughs que era obviamente super 'cool' e tranquilo, como muitos dos 'hipsters' no fim da geração beat. Kerouac não era nada disso. Também pensam a mesma coisa de Ginsberg, mas Ginsberg era longe disto. Era malvestido, não tinha nada de misterioso. Assim, os beats mais famosos foram reinventados. Kerouac é o oposto de 'cool', mas já foi usado em publicidade e hoje é um ícone do passado.

Você gostou de Na Estrada, de Walter Salles?
Gostei. Apesar de toda a crítica ter detonado o filme, acho que (Walter) Salles foi uma excelente escolha para dirigir o filme. Ele compreendeu o tamanho da América. Aquelas tomadas panorâmicas são incríveis, o equivalente visual à prosa de Kerouac. Em um filme desses, não dá para ter alguém citando o livro toda hora. Não funcionaria. Mas Salles consegue adaptar bem o livro, provavelmente porque ele vem de um país igualmente vasto, como a América, e entusiasmo e curiosidade para encontrar novos espaços está imprimido no filme. O diálogo é fraco em algumas partes, mas isto não é o mais importante.

Seu livro conta que Kerouac falava o dialeto franco-canadense, 'joual', até ir para a escola. Acha que isso fez diferença em sua forma de escrever?
Certamente. Kerouac aprendeu inglês somente quando entrou na escola. Ele também vinha de uma cultura bretã, uma cultura de forte vínculo com a história oral. Há 2 mil anos, a história dos bretões ainda era preservada através da memorização de longas sagas. Tanto que os romanos os contratavam como contadores de história por causa da prodigiosa memória que desenvolviam. Então, a herança cultural de Kerouac é muito importante. Não é à toa que ele era chamado de garoto-memória na escola. Conseguia memorizar longos trechos de livros e desenvolveu seu dom para contar histórias logo cedo. Mas o que é realmente importante em seu período de formação é seu amor pelas palavras. Ele era fascinado pela língua inglesa, pela poesia de Shakespeare. Gostava de declamá-la. Quando ele entra nos delírios de Visions of Cody, em que ele transforma suas palavras em puro som, é apenas uma extensão disto. Ele explora os ritmos, o timing e as melodias da fala pura. É quase música, mas é uma música de som decididamente americano. Ele era muito diferente de Ginsberg e Burroughs, e acho, sim, que a formação dele teve a ver com isso.

E como foi que ele desenvolveu a prática de escrever de improviso, como um músico de jazz?
Um amigo sugeriu que ele fizesse esboços, que desenhasse com palavras as cenas que presenciava. A partir disso, ele desenvolveu uma visão panorâmica. Começava com o fundo, e no fim de um longo parágrafo, acabava por descrever a reflexão de um para-lamas, ou os faróis de um carro na janela de um loja. Era como um fotógrafa, acertando o foco de sua câmera. E Kerouac dizia que não corrigia seu trabalho, mas isto não é verdade. Ele mudava muita coisa, mas fingia que não. Se você comparar o pergaminho original de Na Estrada com o que foi publicado, há muitas discrepâncias.

sábado, 17 de novembro de 2012

"Precisamos lutar pelo futuro", diz o poeta da contracultura Lawrence Ferlinghetti

Publicado em 17 de novembro de 2012 no Caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo.

Matéria de CASSIANO ELEK MACHADO DE SÃO PAULO

Lawrence Ferlinghetti era capitão de fragata na Segunda Guerra Mundial. Recorda-se bem do vento gelado que sacudia seu barco quando, com um quepe duas vezes maior do que sua cabeça, cruzou o Canal da Mancha em 6 de junho de 1944, o Dia D.

Ferlinghetti chegou de trem a Nagasaki, seis semanas depois do estouro do grande cogumelo atômico. Encontrou lá um interminável campo de palha que parecia ter sido queimado por maçaricos gigantes.

Ferlinghetti esteve preso na cadeia municipal de São Francisco em 1957, quando sua recém-fundada editora, City Lights Books, publicou o "subversivo" volume de poesia "Uivo", de Allen Ginsberg, dando ignição para a Geração Beat. Ele esteve com Fidel Castro em Havana, em 1959; em Paris em 1968; em Woodstock em 1969; com os sandinistas na Nicarágua e com os zapatistas no México.

Henny Ray Abrams - 16.nov.05/Associated Press
O poeta Lawrence Ferlinghetti lê poema após ganhar o National Book Award, em 2005

O poeta Lawrence Ferlinghetti lê poema após ganhar o National Book Award, em 2005
Lawrence Ferlinghetti está ao telefone em sua casa, em San Francisco (EUA), e não quer falar do passado. "Precisamos lutar pelo futuro. Ou respiramos e agimos agora ou acabaremos com tudo."

Aos 93 anos, o poeta norte-americano acaba de publicar um volume de poesia com este mote, o livro "Time of Useful Consciousness" (New Directions), lançado há 20 dias nos Estados Unidos.

Sua vasta e contundente obra, que lhe rendeu prateleiras de prêmios, também ganha espaço no Brasil.

A editora L&PM, que já havia lançado a principal obra poética de Ferlinghetti, "Um Parque de Diversões da Cabeça" ("A Coney Island of the Mind", 1958), publica na próxima quinzena um dos raros livros de prosa do autor.

O breve romance "Amor nos Tempos de Fúria", de 1988, narra uma inflamável história de amor entre uma artista e um banqueiro, ambientado na Paris de 1968.

Em entrevista à Folha, Ferlinghetti falou sobre esta obra, comentou seu novo trabalho poético e conclamou os leitores a lutarem por questões sociais: "Não fique aí sentado, seu estúpido!".
 
Folha - O seu livro "Amor nos Tempos de Fúria" é dedicado a Fernando Pessoa. Você o fez para homenagear sua mãe, que era de origem portuguesa?
Lawrence Ferlinghetti - A família de minha mãe era mesmo portuguesa, eram sefarditas de uma cidade chamada Monsanto, em Portugal. Mas não cheguei a ter contato com este passado. O livro não homenageia a minha mãe, mas sim a Pessoa. Eu me inspirei no texto dele "O Banqueiro Anarquista". Peguei deste texto toda a ideia central para meu livro.

O sr. se identifica com as ideias do "banqueiro", que tem o sobrenome Mendes, assim como sua família?
É curioso, mas o termo anarquismo é usado hoje na imprensa americana como sinônimo de terrorismo. É uma completa ignorância à respeito da tradição anarquista.
Nos anos 50 todos éramos anarquistas. Mas nos anos 50 a população mundial era a metade da atual. Quando havia menos gente era possível ser um deles. Mas quando a população dobra algum nível de planificação da economia mundial se faz necessário.
Hoje eu me descreveria como socialista humanitário.

O sr. já disse que normalmente as pessoas costumam ficar mais conservadoras quando envelhecem e que com o sr. foi o oposto. Por que o sr. acredita que esteja ficando cada vez mais radical?
A pressão do tempo é que dita isso. Tempos radicais pedem respostas radicais. O mundo está num péssimo estado. Lembro que tive uma conversa com Günther Grass em 1975. Ele disse que acreditava que, no final do século 21, as nações tal como as conhecemos não existiriam mais e o mundo estaria coberto de hordas étnicas lutando por comida e abrigo. É uma visão terrível do futuro, mas não é impossível diante do que vivemos. Precisamos lutar.

O sr. se considera um ativista?
Quando alguém escreve para valer é, em essência, um ativista. É importante agir. Não dá para ficar sentado em casa. Não fique sentado aí, seu estúpido, o mundo está em chamas (risos).

"Time of Useful Consciousness", título de seu novo livro, é um termo aeronáutico que trata do tempo que alguém tem num avião entre o momento em que fica sem oxigênio e a morte. É uma metáfora para a situação do ser humano?
É exatamente isso. Chegamos a um ponto de inflexão em termos de ecologia. Os maiores estudiosos do clima estão discutindo atualmente se a raça humana vai sobreviver a este século. Ou respiramos e agimos agora ou acabaremos com tudo muito em breve.

O sr. é conhecido por sua poesia, não pela prosa, e em ambas usa linguagens experimentais. Por que no romance que está saindo aqui o sr. usou um estilo mais convencional?
Quando escrevi "Her" [1960], meu romance anterior, estava interessado em trabalhar o fluxo de consciência. Estava influenciado por obras inovadoras como "Nadja", de André Breton. "Amor nos Tempos de Fúria" foi escrito num momento diferente. Eu tinha voltado a morar em Paris, eram os anos 1980 e o Centro Georges Pompidou tinha digitalizado todos os jornais de 1968. Li tudo e achei que deveria ambientar um romance neste momento.

O sr. disse que releu o livro para esta entrevista. Gostou do que leu?
Sim, embora eu prefira o estilo de "Her". O deste é mesmo mais convencional. É quase uma reportagem desta época, com a graça de usar como protagonista o personagem de Fernando Pessoa.

Há um mês o sr. deu uma de "Banqueiro Anarquista" e recusou um prêmio de € 50 mil por razões ideológicas, não?
Recusei o prêmio do PEN Club da Hungria depois de descobrir que parte do dinheiro vinha do governo daquele país, que hoje é um dos mais autoritários da Europa e cujo primeiro-ministro andou homenageando um nazista. Foi difícil negar o prêmio, porque € 50 mil é mais do que eu ganhei com poesia durante toda a minha vida, mas não tive escolha.

Mas "A Coney Island of the Mind" é considerado o livro mais vendido de um poeta vivo americano. Já vendeu um milhão de cópias...
Deve ser, mas em nenhum ano ganhei mais do que US$ 10 mil de royalties.

O sr. ainda vai à livraria que fundou, a City Lights?
Costumo dar um pulo lá de vez em quando, mas me aposentei do trabalho mais ativo. Você sabe, tenho 93 anos. Coloquei um pessoal mais jovem para tocar o negócio. Prefiro me dedicar à pintura e à poesia. No livro novo junto as duas, já que na capa há uma pintura minha.

A capa mostra um relógio com dois ponteiros quase sobrepostos...
É o tempo que está acabando. É um livro um pouco sombrio, mas, no final do poema, depois de escrever sobre os terríveis prognósticos para o planeta, eu escrevo "Chega, chega". Eu tento encontrar alguma esperança no futuro. Nas últimas páginas há esta grande virada. Não queria terminar com um tom de desespero. Por isso é que, no final do livro, eu cito Walt Whitman, o eterno otimista.

O sr. costuma ser chamado de "o último beat", mas já li declarações suas dizendo que não gosta do epíteto.
Eu me associei aos beats mais por ter sido editor deles. Mas minha poética é diferente. Minha poesia foi influenciada por franceses como Apollinaire, Jacques Prévert e outros voltados para a cultura europeia. Os beats não iam por esta linha.
Havia outra diferença. Sou heterossexual. Metade dos beats era gay.

Quais as principais diferenças em termos poéticos?
A poesia de Allen Ginsberg era baseada na ideia do "primeiro pensamento, melhor pensamento", um conceito que ele pegou do budismo. Jack Kerouac acreditava nisso. Você escreve a primeira coisa que aparece na sua cabeça, sem censura.
É um modo profundo e verdadeiro de conceber poesia. O que você escreve primeiro é muito frequentemente melhor do que o que consegue depois de burilar o texto.
Mas isso é mais verdadeiro se você é Ginsberg, um gênio com a mente original. Mas se você ensina isso para centenas de estudantes de poesia, como Kerouac fez numa escola em Colorado, não vai funcionar. As pessoas têm mentes comuns e produzirão alqueires de poesia chata. Ele pregava que as pessoas deveriam escrever sobre a primeira coisa que vissem logo que acordassem. Isso pode ser lindo no olhar de Ginsberg, mas não funciona para todos. Imagine: "Acordei. Vi minha escova de dentes. Ela caiu no chão. Abaixei para pegá-la", fim do poema (risos).